Minha mãe tinha uma Olympus Trip 35 que ela que escondia a sete chaves, um cadeado e um segredo que devia guardar a origem do mundo. A primeira vez que encontrei aquela relíquia foi quando nos mudávamos para a General Osório, 121, e na bagunça das caixas, roupas e outros pertences que se perdiam de seus donos, pus os olhos numa caixinha preta com uma enorme lente redonda e segurei-a como um troféu de primeiro lugar. Claro que seria arriscado demais revelar o achado para os novos moradores do 101. Precisei trair a confiança da Família Franco buscando instruções de uso na garotada recém-amiga, mas de boa reputação, do prédio. Alguém me passou a valiosa informação de que a irmã mais velha de uns dos meninos ganhara uma máquina de aniversário e talvez fosse ela a pessoa que eu procurava. Mas os avanços tecnológicos, que desde aquela época já trocavam os botões de lugar, nos deu uma rasteira fatal: acabamos abrindo a tampa onde estava o filme fotográfico e eu fiquei duas semanas de castigo por ter queimado o que viria a ser a última imagem do meu avô.
Depois veio a Olympus automática, e, como uma consumidora fiel, minha mãe manteve o respeito à marca cedendo apenas às novidades da década seguinte. Flash embutido, novo design e, a cada duas semanas, novo esconderijo, que nunca me fazia desistir de achar a máquina. E por essas peças que o destino nos prega (no caso, à minha mãe), eu sempre acabava a encontrando e isso me rendia boas imagens por algumas semanas, até ser descoberta. Tiveram vezes em que a Olympus viajou cidades, e mesmo estados, alguns que minha própria mãe nunca havia pisado, e eu me orgulhava de cada click.
Então veio o primeiro salário e pude realizar finalmente o sonho da máquina própria - foi quando chegou a Sony Cybershot. A modernidade, dessa vez a meu favor, me trazia imagens com revelação gratuita que surgiam por um cabinho plugado no computador, e assim eu batia tantas fotos que devo ter deixado a memória do pc mais lenta. Mas por essas peças que o destino nos estraga (no caso, da máquina), fiquei com imagens do escuro e um orçamento mais caro que uma digital nova. E foi aí que veio a luz no fim do túnel, com a ajuda daquela a quem tanto enganei. Talvez por querer livrar a sua nova Cannon (presente do meu irmão) das minhas garras, talvez porque no fundo ela gostasse da ousadia a qual nunca se permitiria – tirar sua máquina da gaveta -, minha mãe mexeu em algo ainda mais difícil para ela e me deu dinheiro para a sonhada aquisição. Honrei o pesar de tantos sacrifícios e fiz as imagens mais lindas que consegui. Não saía sem minha Panasonic Lumix na bolsa e pude recortar gestos do cotidiano que ganhavam elogios de me deixar ainda mais orgulhosa. Pronto, agora tinha mais uma paixão em minha vida. Mas como o destino não esquece os pregos (no caso, pra mim), levaram minha Lumix numa das esquinas do carnaval e mais uma vez fiquei sem os clicks e com o coração partido. Ouvi um bocado da minha mãe, que lembrava a importância da proteção de uma gaveta, mas os retratos que hoje guardo ficarão por toda a vida e não pretendo parar por aqui. Agora só falta descobrir onde será que ela escondeu a máquina dessa vez.
foto: lu franco (foto no mural: thiago franco)